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A absolvição do vestido

outubro 23, 2013

Abro o guarda-roupa. Única mulher entre três irmãos sempre vivi desde cedo o desafio de como lidar com a diferença. Olho os vestidos com certa insegurança.  O machismo salta de lá de dentro e comenta.  “Ah, se tiver bonita e de vestido é porque é frágil ou quer atrair o sexo oposto”. Nem uma coisa e nem outra. Visto-o para encontrar uma amiga em um desses caranguejos de Salvador.

Pegar táxi ou ônibus? O vestido me leva para o táxi. Mas antes me faz observar algumas mulheres na rua. Uma passa manejando o salto na calçada de pedra portuguesa que compartilha o espaço com desníveis de terra,  os inconvenientes buracos. Uma das mãos passa pelo braço do rapaz com camisa comprida de botão. Ele com o peito estufado dá o suporte para a moça. A outra mão sempre a verificar se a saia justa não subiu mais do que deveria. Um palmo acima do joelho e pronto. Não poderia deixar de pensar, “Ah, ela está acompanhada de um homem”.

Outra mulher passa com um vestido longo, solto e estampado. Dessa vez o saltinho permite que ela caminhe independente. Cabelos lisos no estilo sem criatividade de quem se livrou dos cachos naturais. No batom vermelho não vi fraqueza. Mas poder. Nenhum homem está mexendo com ela, pensei. Achei estranho. Como ela reagiria a um assédio gratuito de quem vê na beleza do outro a licença para clamar uma posse?

Pego um táxi. Ao entrar sozinha no bar, cabelos soltos e de batom, logo sou alvo dos olhares da mesa repleta de barbudos, bigodudos, sem barbas, pernas cabeludas e bermudas com chinelas. Com o olhar eles dizem, “Como você está linda”. Sigo em busca da mulher que me aguarda. Caldo de camarão e iscas de peixe. Logo optamos por uma caminhada na orla. Ver o mar e a lua. Duas atrações gratuitas que geralmente pouco valorizamos nas horas vagas.

De surpresa veio um toque no meu ombro. Vejo um rapaz saltitando mantendo o ritmo da malhação enquanto acompanhava meus passos.  Um quê de nonsense à cena. “Oi tudo bom? Como tá você? Vai ter festa lá em Cruz das Almas? O forró vai ser ótimo”. “Desculpa, mas acho que você está me confundindo com alguma outra pessoa”. É um erro querer dar uma resposta lógica dentro de uma situação ilógica. Ele continuou falando. Esqueci que estava de vestido. “Meu irmão, pegue seu caminho e parta”. Lembrei do vestido e saiu um “você vai perder o pique da malhação”. Ele respondeu qualquer coisa e seguiu. Logo à frente, o incansável maratonista da paquera começou a puxar conversa com outra moça. Ela não estava de vestido.

Rimos do acontecido e continuamos a falar sobre viagens, planos, trabalho. A lua do lado oposto ao mar dava ares de mistério aos prédios altos. Outros homens passavam caminhando, de carro ou pedalando. Mulheres acompanhadas ou sozinhas. Nada de comentários. Bicicletas patrocinadas por um banco alegravam poucos ciclistas protegidos por sinalizadores laranjas contra os carros. Pareciam barricadas do órgão fiscalizador de trânsito para garantir o livre caminhar e pedalar. Havia ali uma tentativa de trégua para uma guerra civil?

Na balaustrada próxima, um grupo de homens aparentava ter voltado do mar. Arpões à tira colo, alguns sem camisa e cabelos molhados. Conversavam e riam alto. Era notável que nós já havíamos atraído a atenção deles. Continuamos caminhando. De lá sai: “Ah, como eu queria ser o vento para acompanhar vocês”. Olho para as outras. Elas estão de bermuda. Penso que o “vocês” referiu-se não só a mim, mas a todo o grupo. Esqueço que estou de vestido e deixo escapulir um “mas não é barão” entre risos sem graça. Ele mostra a língua e dá um sorriso de lascívia para provar que é um macho reprodutor sexuado.  Meu vestido me faz pensar, será mesmo que ele cumpriria esse papel querendo eu descarregar a tensão do corpo em um gozo momentâneo ? Ou o flerte foi apenas o jogo de poder entre caçador e presa tão banalizado nas ruas dessa cidade? Diz para eu ignorá-lo. Argumenta em pró de sua inocência nesse julgamento infame e aponta que o problema está do lado de lá. Ondula solto com a brisa.

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From → Crônicas

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