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Helicóptero russo

setembro 1, 2011

Estávamos dormindo. Na noite anterior ela deixou a porta da frente aberta por causa do calor. Também não haveria perigo, pois a vizinhança era tranquila. As casas que ficavam em cima da rampa de cimento igual a nossa também faziam isso de vez em quando.

Não lembro porquê eu acordei, mas o barulho das hélices se faziam ouvir na minha cabeça. Pensava que era algum animal de grande porte na minha porta. Estranho porque imaginava um animal voador. Ele tinha a bandeira da Rússia e os fardados estavam de verde militar. Pensei se não era o helicóptero da FAB.

Na porta de casa, a luz já acesa, perguntei o que eles queriam. Que não entendia o porquê da vista aquela hora da noite. Pensei comigo que eles queriam posar lá em frente de casa, por causa do grande campo verde. Eu conseguia ver três deles, mas só um falava. De óculos escuros aquela hora da madrugada, falava com um sotaque um pouco carregado. Dizia que vinham ao chamado de um grupo. Recebeu indicações especiais para passar por minha casa. Eu falei que não tinha cama sobrando. Ali só morávamos eu e minha namorada e a casa era humilde. Ele me ohou estranho com um ar de inquisidor.

– Olha moço, o único grupo que sei estar se manifestando é o pró-monarquia da rainha da Inglaterra. Eles têm uma ligação muito forte. É um tal de… eles chamam de… ‘bond’ ou ‘attachment’. É uma identidade muito forte algo que marxismo nenhum provavelmente conseguirá dissuadir. Não acredito que irão ser desintegrados para formarem uma nova classe social internacional.

Chegaram mais uma mulher e um outro fardado que tinha aparência de uma pessoa local e falavam minha língua. A mulher se vestia simples como a gente. Bermuda jeans apertada, barriga de fora e camiseta de lycra de manga curta. Dava para ver um pouco de sua celulite e a pele queimada de sol. O cabelo crespo preso com um elástico e para o alto, ela perguntou:

– Então você sabe sobre marxismo.

– Não. Assim como a maiorida das pessoas só leio o que os outros escreveram sobre a teoria. Mas, por curiosidade. Nada mais. Suspirei sem paciência. – Olha, vocês podem ficar a vontade, mas eu tenho que voltar para cama. Desliguem a luz quando forem dormir para economizar energia.

A mulher insistiu em continuar conversando comigo. – E essa energia vem da onde?

– Vem da hidrelétrica, mas a gente do bairro, é… estamos nos organizando para conseguir um painel solar. É isso. Eu balbuciava sem saber porquê, olhando o filtro S.Jorge na cozinha. Aquele misto de “não lhe devo satisfação” e culpa. Mesmo assim, voltei a cabeça para eles e ninguém perguntou mais nada.

Minha namorada no canto não estava assustada e nem interessada no assunto. Desde a hora que acordou, não parecia se inquietar com a presença de um helicóptero russo na nossa casa. Veio comigo até sala, mas apenas por curiosidade eu diria. Depois ficou contando os segundos para voltar a dormir.

Voltamos para a cama. Fechamos a porta. Podíamos ouvir que na sala, forravam o chão com cochenetes de fazer ginástica e riam alto. Com uma risada determinada. Ainda na cama eu ouvia as vozes de longe na minha porta. Uma coversa animada. Acordei, fui ver se ainda estavam lá. Já tinham ido. Acho que não tinha muito tempo, pois eu ainda sentia ou lembrava do som do helicóptero levantando vôo.

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