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Morte de Dugghan aumentou raiva dos jovens contra polícia

agosto 15, 2011

A morte de Mark Dugghan foi mais um erro da polícia britânica que demorou em corrigir as informações de que Dugghan não havia atirado na polícia como o primeiro relatório sugeria.O protesto pela morte de Dugghan seguido de tumultos, saques a lojas e incêndio a propriedades na última semana na Inglaterra acirra a antipatia dos jovens à polícia e deixou ainda mais clara a identidade dos líderes dos três maiores partidos do país. Os três políticos assumem posições distintas sobre o incidente que segundo dados do Data Blog do The Guardian já julgou 263 casos, sendo 240 deles envolvendo menores de 25 anos, número que já sugere qual é a idade da grande maioria das 1600 pessoas a serem julgadas.

O Primeiro Ministro e líder do Partido Conservador David Cameron sempre demonstrou auto-confiança. Não vacila em seu plano de reduzir o déficit econômico do país aplicando o velho princípio da direita de reduzir impostos para quem gera emprego e renda e de diminuir o papel do estado. Sobre problemas sociais a prerrogativa era transformar o assistencialismo social em projetos com base no voluntariado; a retórica que ele chamou de’Big Society’. A história assim não quiz e as ‘revoltas’ fizeram Cameron recorrer à fórmulas antigas, se colocando ainda mais à direita do Partido Conservador. Nesta segunda-feira, apesar de finalmente admitir que a sociedade tinha problemas tanto no topo como na base, relembrando os casos dos ‘grampos telefônicos’ que envolveu inclusive o seu ex-assessor de comunicação, Andy Coulson (preso e solto sob fiança) e a cultura de bônus que alimenta um sistema financeiro amoral, Cameron não fez menção a programas de reabilitação ou inserção social. Apenas destacou que todos os casos eram reflexos de uma ‘broken society’. Sem dúvida, para Cameron as revoltas é um problema de violência a ser resolvido pela polícia e com disciplina, e o estado (aquele que deveria diminuir) deve oferecer ‘lei e ordem’. Bye-bye ‘Big Society’.

Cameron ainda sugeriu que o governo compensasse quem teve seu negócio prejudicado pelas ‘revoltas’ e que o uso das mídias sociais fosse proibido para aqueles que fossem pegos incitando violência. Esse último fator deve ter deixado o Vice-Primeiro Ministro, Nick Clegg, líder dos Liberais Democratas de cabelos em pé. Clegg não fez declarações sobre a questão das mídias sociais, mas seu partido é conhecido por apregoar a liberdade individual. Sua posição como líder vacilante perante os Lib-Dems sobressaltou ainda mais esse fim de semana quando ele declarou apoiar a petição on-line e a ideia do governo de retirar os benefícios sociais daqueles que estiverem envolvido nas ‘revoltas’. O seu vice-líder, Simon Hughes, no entanto, escreveu no The Observer deste domingo, que soluções precipitadas deveriam ser evitadas, se posicionando contrário a medida do governo de retirar os benefícios. Hugues destacou ainda que os ricos não deveriam ter impostos reduzidos enquanto o serviço público é retirado dáqueles com maior necessidade. Clegg, aparentemente, não sabe a quem agradar.

Ed Miliband, eleito esse ano como líder do Partido dos Trabalhadores foi cauteloso. Não analisou a ‘revolta’ como uma briga entre classes. Não colocou a culpa no sistema ou nos banqueiros. Sua primeira reação foi declarar que as seguradoras precisavam agir imediatamente para compensar os negociantes, em sua maioria donos de comércios locais. Ganhou credibilidade e saiu ainda mais da sombra do irmão dele, David Miliband, que era tido como favorito para assumir a liderança do partido. Em seguida, e muito antes de Cameron apontar os dedos para as falhas de uma ‘sociedade em pedaços’, Ed Milliband destacou o problema da irresponsabilidade individual de forma conjunta, lembrando dáqueles envolvidos no caso dos ‘grampos telefônicos’ e a cultura do lucro a qualquer custo do centro financeiro da cidade. Porém, Milliband urge por uma análise mais profunda do caso, colocando a injustiça social como um dos fatores das ‘revoltas’, o que porém não a justificaria.

Enquanto os três partidos políticos do país tentam analisar o problema e sugerir soluções, a imagem da mulher na TV na região de Brixton dizendo a Ed Milliband que os jovens que fizeram isso não tinham nada a perder sintetiza alguns dos fatores. Muitos dos chamados ‘clubes sociais para juventude’ foram fechados recentemente sendo um dos setores mais afetados pelos cortes do governo. A tática policial de ‘páre e reviste’ tem sido cada vez mais aplicada pela polícia o que indigna jovens na rua. Além disso, a ajuda de custo para estudantes de baixa renda será cortado mês que vem como aponta Polly Toynbee também no The Guardian. Sem dúvida, quem não havia o que perder, e estava à margem da sociedade, será cada vez mais marginalizado, o que Hugues chamou de decisões precipitadas com consequências indesejadas. A sub-prefeitura de Wandsworth, dentro da Grande Londres já expediu a primeira carta de despejo para uma moradora do apartamento do goveno que é mãe de um jovem de 18 anos que participou das ‘revoltas’. A Justiça está sobrecarregada e analisa casos individuais como se fossem um ato em conjunto. Jovens que levaram produtos, pela oportunidade, estão sendo encarados como jovens que arrobaram lojas e levaram caixas registradoras ou começaram o tumulto.

A irresponsabilidade de quem esteve envolvido nos ‘grampos telefônicos’ foi e está sendo analisada de forma individual, a cultura do bônus no centro financeiro da cidade continua muito em voga, no entanto, e não sei se ninguém foi preso porque queria ganhar dinheiro sem considerar as consequências negativas para a sociedade. É triste, mas é real. A igualdade entre diferentes grupos étnicos não veio sob a lei de 1948 que criou o conceito de cidadão britânico para aqueles que nasciam nos domínios da Coroa (British Nationality Act 1948, modificado posteriormente). Os jovens de diferentes etnias foram igualados por baixo. Algo que fez o conceituado historiador David Starkey ter a infelicidade de afirmar que os ‘brancos viraram negros’, em um programa televisivo da BBC, o que me faz lembrar de uma dama da sociedade se dirigindo a um eminente jurista baiano como um ‘negro de alma branca’ devido a sua etnia.

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From → Análise

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