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Mas afinal, quem são esses desordeiros?

August 10, 2011

Sábado, dia 6 de agosto. Nada melhor do que curtir uma noite de verão londrina fazendo picnic e assistindo filme no pátio da Somerset House, nas proximidades do Parlamento.  No telão o clássico de Steven Spielberg de 1984: Gremlins. Do outro lado da cidade, na área de Tottenham Hale, um protesto pacífico com mais ou menos 120 pessoas vira em tumulto com um ônibus, dois carros de polícia e uma loja em chamas. Eles pediam justiça porque  um morador da área, Mark Duggan, 29, foi morto pela polícia. Mas a desordem e saques a lojas tomam uma proporção fora do contexto do que se conhece como  manifestação popular e entra pelo quinto dia consecutivo como uma verdadeira sequência de arrastões.

Eu, particularmente, sempre gostei de um protesto. Uma manifestação. Aqui em Londres sempre tem e o ‘Whitehall’ (rua onde fica os Ministérios) fica lotada de gente. Ou então a praça onde fica o Banco da Inglaterra. Uma agitação. Muito cavalo de polícia e muita palavra de ordem para um ‘contrato social’ mais justo. A onda de violência que acontece no momento na Inglaterra; ainda não foi reportado nenhum incidente em outro país do Reino Unido; não tem faixa, slogans, agenda. A não ser, frases como esta que foi rastreada em telefones Blackberry e tomou conta dos noticiários: “If you see a brother, SALUTI. If you see a fed (policial), SHOOT”.

No filme de Spielbeg, também tem muita arruaça e quebra-quebra. Os gremlins viram a cidade de perna para o ar, roubam lojas e fazem a festa em um bar. O comportamento anti-social dos gremlins que são potenciais gizmos (bichinhos do bem)  ocorreu porque as três regras; nunca o alimente após meia-noite, nunca o deixe perto da luz ; nunca o coloque em contato com a água; foram quebradas. Ao contrário do filme, no entanto, o vandalismo nas ruas da Inglaterra está sendo liderado por pessoas de carne e osso. E é muito mais complexo. Mas quem são essas pessoas e o que fizeram eles entrarem nessa loucura coletiva?

Os imigrantes. Telefone fixo aqui de casa toca. 99% de ser minha minha mãe.Bingo. Quando atendo o telefone é ela. Compartilhamos o alívio. Segundos depois, veio a pergunta. “Mas quem são essas pessoas, de onde elas vieram, minha filha. São os imigrantes ?”Bom, pensei comigo, eu não sou inglesa e moro no país há quatro anos, portanto sou imigrante. Não tenho coragem nem de roubar na conta do bar. Quem dirás quebrar vitrine. Tenho trabalho e estudo. “Não mãe, não são os imigrantes”.

São os negros. É um conflito racial, assim como foram os protestos dos anos 80 em pró de uma sociedade mais igualitária. Dados no blog do jornalista Doug Saunders (em inglês), no entanto, aponta que tanto do lado dos baderneiros como dos policiais tem pessoas de diversas etnias. São os funcionários do setor público que perderam ou vão perder o emprego. São os estudantes que viram o Parlamento aprovar a lei que permite as faculdades cobrarem mais de 9 mil libras pela graduação sendo que antes era um pouco mais de 3 mil libras (Ihhh, nesse dia, o bicho pego também. Eu não fui).São os anti-heróis.

Não. Eles não são nada disso. Eles não são heróis anti-capitalistas, pois a lógica deles é tão individualista como a de algumas pessoas que trabalham em centros financeiros ou governo e põe o lucro ou vantagens pessoais acima de qualquer decisão ética. Eles não tem nenhum sentimento de comunidade. Como o próprio Saunders comenta no texto dele, eles são a juventude sem futuro do Reino Unido, país onde 600 mil jovens com menos de 25 anos nunca tiveram um dia de trabalho. Esse fator, em conjunto com a recessão na Europa e a cultura de gang que existe no país resultou na desordem. Muitos daqueles que poderiam ser ‘gizmos’ do bem, assim como no filme de Spielberg, não tiveram ou não tem uma chance e foram atraídos e imersos na cultura do comportamento’chav’. E juntos fizeram um estrago sem precedentes neste país. Alguém pode discordar, mas o que mais justificaria jovens de até 11 anos de idade perder o medo da polícia e se divertir robando um par de tênis ou um eletrônico qualquer. Eles não são bons ou maus em si. Ao contrário do que o imaginário coletivo internacional pensa, aqui não tem apenas lords que chegam pontualmente para tomar o chá das 5, mas tem também os ‘chavs’ (jovem entre 10 a 20 e poucos anos que não termina a escola e respeita muito mais a lei de sua própria gang do que qualquer outra regra).

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From → Análise

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