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O Destino de Poseidon e A Peste

junho 14, 2011

Um navio a todo o vapor indo ao encontro de uma onda que irá determinar o destino de centenas de pessoas. Fulminante, ela vira o navio de cabeça pra baixo. Dez pessoas decidem não esperar por socorro, mas procurar a saída eles mesmos. Quem lidera o grupo de sobreviventes é o padre interpretado por Gene Hackman em performance brilhante.

O melhor do filme é o discurso que o padre faz em duas ocasiões. Na primeira, em um dia claro e límpido de sol, ele se dirige ao público na véspera do desastre. O padre (Heckman) urge seus ouvintes a não caírem de joelhos e rezarem pedindo a ajuda de Deus em suas vida – “Deus está muito ocupado para ouvi-los” – mas para agirem com o Deus que cada um tem dentro de si.

Tradução do título de ‘The Poseidon Adventure’ para o ‘Destino de Poseidon’ ainda melhor infere a tensão entre fatalidade e livre arbítrio que há no filme.

O que fazer então quando o destino joga um onda de mais de 500 metros e coloca o barco onde você está de cabeça pra baixo? O padre (Hackman) iria buscar uma saída, caminhando de cima para baixo do navio. O seu colega de sacerdócio não o acompanha e comenta que o discurso dele era para os ‘fortes’. No salão de festas, a impotência diante do destino aparece em cores e detalhes quando o padre (Heckman) olha para o grupo de pessoas serem engolidos pela torrente de água.

A representação dos ‘fortes’ e ‘fracos’ do filme se assemelha a um discurso de Friedrich Nietzsche quando diz ‘ [o ser humano] prefere a vontade do nada ao nada do vontade’ (Nietzsche, Genealogia da Moral). No caso, o padre interpretado por Hackman pertence a categoria dos fortes que preferem o ‘nada da vontade’; ele não sabe se o plano dele vai dar certo ou não, mas ele precisa persistir e tentar. Em contraste, o outro padre fica para consolar os que ficaram e vão morrer sem tentar; ele representa os que preferem a ‘vontade do nada’. Estão esperando apenas a morte chegar.

O segundo discurso do padre é contra Deus. A um passo do que seria a saída do navio naufragado, outra explosão bloqueia o caminho do grupo e mais uma pessoa morre. A fumaça do ambiente precisa ser controlada e ele se joga em direção a válvula. Enquanto fecha a saída de vapor, ele acusa Deus pela catástrofe que está ocorrendo, questiona o porque daquele desastre e pergunta qual será a próxima vida a ser sacrificada. Depois de fechar a válvula, ele não tem mais como voltar para onde ele estava. Fica claro que ele é o próximo. Sem esperar pelo improvável, ou pedir misericórdia, ele se joga em direção a morte.

Esses desastres coletivos me lembram o argumento de Albert Camus no livro ‘A Peste’. Devido a uma epidemia de peste bubônica, ninguém podia entrar e nem sair do país; se não me falha a memória uma ilha, preciso reler o clássico que tive que estudar para uma aula de semiótica há anos atrás. Os recursos para a sobrevivência daquela comunidade vão ficando escassos e a situação de emergência cria um solidariedade nunca antes vista entre seus habitantes. O desastre colocou todos cidadãos em situação de igualdade e a divisão de classes desapareceu.

Camus nos traz um estado de sítio que não é causado pela guerra, mas pela epidemia de uma doença. A princípio, pode-se dizer que uma guerra acontece mais por uma decisão humana do que uma epidemia; o que pode ser contra-argumentado por aqueles que vêem a presença da indústria farmacêutica na África como oportunista, pois os laboratórios infectam as pessoas para depois venderem o remédio. Independente, a epidemia em ‘A Peste’ provoca uma ‘catarse coletiva’.

Antes de parecer que meu argumento é a favor de catástrofes, o que gosto é de filmes e livros que se ambientam em desastres. Eles para mim trazem o mais humano e ‘demasiadamente humano’ da vida; como poderia dizer Nietzsche dessas situações.

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